Desafiando a gravidade!!
Saudações, nerd do Hospício! Aqui é a Melanya Fiaux, e hoje trago pra vocês a crítica sem spoiler de Wicked: Parte 2, o aguardado desfecho dessa jornada musical cinematográfica, que finalmente está nas telonas. E se você achava que era só um “prelúdio” para O Mágico de Oz, prepare-se: esta obra não só conclui a história de Elphaba e Glinda, como se estabelece como a narrativa definitiva de Oz, transformando o clássico que conhecemos em algo novo e absolutamente surpreendente.
O Conflito Central: Política, Drama e Empatia
A trama se aprofunda 12 anos após o primeiro filme, com Elphaba sendo a inimiga pública número 1 de Oz. A adaptação é mais longa que o musical, o que permite explorar as personagens principais e aprofundar a história com mais detalhes.
O filme não foge do fator político que move Oz. Enquanto Elphaba, agora mais madura e determinada, luta para expor as mentiras do Mágico e defender os animais silenciados (um ponto crucial de sua jornada), Glinda é a favorita do povo, vivendo no luxo do palácio. No entanto, sob a manipulação de Madame Morrible (Michelle Yeoh), Glinda se torna a face sorridente de um regime que ela mesma questiona. Sua fama e o casamento com o Príncipe Fiyero (Jonathan Bailey) não conseguem esconder a contradição de uma vida que, embora pareça perfeita, é baseada em mentiras. Glinda, que quando criança sonhava em fazer magia, descobriu que o mais importante era ser amada, mas essa busca a levou a um caminho onde ela não sabia mais o que realmente queria.

A tentativa de Elphaba de consertar as coisas e fazer o bem acaba tendo um preço alto, causando uma série de desastres que afetam o destino de Fiyero, Boq (Ethan Slater) e Nessarose (Marissa Bode). O clímax acontece quando a multidão se volta contra a “Bruxa Má do Oeste” e Glinda e Elphaba precisam se encontrar uma última vez. É nesse encontro final que, pela primeira vez, elas conseguem se enxergar com verdade e empatia, transformando não só suas vidas, mas talvez o mundo inteiro.
Um detalhe de mestre do diretor Jon M. Chu foi a forma como ele lidou com as referências a O Mágico de Oz. A decisão de não mostrar o rosto da Dorothy é um aceno respeitoso à memória da versão original de Judy Garland, evitando que a lembrança da atriz atrapalhe a experiência do espectador. Os momentos em que a personagem aparece são um verdadeiro deleite, com cenas icônicas e memoráveis sendo revisitadas, mas sem dar à Dorothy um destaque desnecessário, mantendo o foco em Elphaba e Glinda.
Visual de Tirar o Fôlego e a Coesão Genial
No quesito técnico, o filme é um espetáculo visual. A direção de arte, a fotografia e a composição visual são de altíssimo nível. A paleta de cores é usada de forma inteligente, quase como uma linguagem emocional: intensa para o universo de Elphaba e luxuosa para o mundo de Glinda. Esse contraste enriquece a história, com figurinos deslumbrantes. Há um momento notável em que as duas protagonistas estão em jornadas separadas, e o revezamento das cenas mostra esse contraste de forma brilhante, com a fotografia e o figurino de cada uma refletindo seu estado emocional e seu lado da história.
A montagem merece aplausos. Ela equilibra a ação, os números musicais e os momentos dramáticos com uma fluidez impressionante. O segredo por trás dessa coesão? A gravação simultânea das duas partes. Essa decisão ousada garantiu que o filme tivesse uma coerência estética e emocional incrível, parecendo uma única e grandiosa ópera dividida em dois atos indispensáveis.

As Performances que Entram para a História e as Músicas Inéditas
O coração pulsante do filme são as atuações de Cynthia Erivo (Elphaba) e Ariana Grande (Glinda). As protagonistas entregam performances que são, sem exagero, memoráveis, daquelas que ficam marcadas na memória coletiva como ícones do cinema musical moderno.
A trilha sonora é outro ponto alto, especialmente pela inclusão de canções que não estavam na peça original. As duas novas músicas compostas por Stephen Schwartz, “No Place Like Home” e “The Girl in the Bubble”, não apenas adicionam valor ao filme, mas o atravessam emocionalmente. É importante notar que, para um fã da obra original, essas novas composições podem não ser tão imediatamente memoráveis, mas elas cumprem seu papel. Destaque para “No Place Like Home”, uma canção de Elphaba que faz uma referência direta à icônica frase de Dorothy em O Mágico de Oz (“Não há lugar melhor que nossa casa”), conectando as narrativas de forma sutil e poderosa. Outro ponto alto é “The Girl in the Bubble”, que ironicamente usa o transporte de Glinda (a bolha) como metáfora para a vida de ilusão e manipulação que ela vive, marcando o momento em que a personagem decide “sair da bolha” e tomar uma atitude. São composições que aprofundam a dor e a emoção das cenas em que surgem, com uma pulsação que ecoa a própria história.
O Calcanhar de Aquiles: Falta de Surpresas e Peças Soltas
Apesar de todos os acertos, o filme tem um ponto fraco que pode incomodar o público geral: a fidelidade excessiva à peça. O filme adapta exatamente os fatores que acontecem no musical, e isso inclui as “peças soltas” e as questões que a própria peça nunca se deu ao trabalho de explicar.
Infelizmente, não há muitas surpresas ou revelações que os fãs gostariam de ver aprimoradas na transposição para o cinema. Personagens como Nessarose e Boq acabam não tendo o destaque merecido, e até mesmo uma das músicas mais esperadas pelos fãs teve parte cortada, o que, de certa forma, diminui a profundidade da personagem.

Veredito Final: Uma Catarse que Fica na Memória e o Duplo Sentido de “For Good”
Wicked: Parte 2 é um evento cinematográfico que transcende a simples adaptação. É um filme que, apesar de tropeçar na fidelidade excessiva ao material original em alguns pontos, entrega uma experiência arrebatadora e inesquecível. A catarse emocional é garantida, e a história ensina, acolhe e emociona de uma forma que garante sua permanência no imaginário popular por muitas gerações.
A grande vitória do filme, no entanto, está no desenvolvimento de Glinda. Apesar das críticas, o filme consegue trazer mais humanidade e profundidade para a personagem. No final, ela realmente mostra o porquê de ser chamada de Glinda, A Boa, completando sua jornada de forma magistral.
O fechamento da história é coroado pela icônica canção “For Good”. O título original da música — e do filme em inglês — carrega um poderoso duplo sentido: “para o bem” e “para sempre”. No final, as duas protagonistas cantam esse trecho, mostrando o quanto a amizade delas foi essencial na vida uma da outra e o quanto elas mudaram para sempre por conta disso. Essa é a essência de Wicked: a desconstrução do que é ser “bom” e “mau” e a prova de que as conexões verdadeiras nos transformam para o bem.
No fim das contas, a saga Wicked se estabelece como um marco. Não é Oz que muda, mas sim o espectador, que é convidado a repensar o que é ser “bom” e “mau”. É um filme para ser visto e revisto, pois a cada sessão, a emoção e a profundidade permanecem intactas.
Resenha By: Melanya Fiaux
