Bem non sense
Morra, Amor surge como um drama romântico — mas que beira o horror psicológico,E não tem medo de arreganhar o peito nesse aterramento mental. Com um elenco de peso e uma proposta arriscada, o filme me joga contra a parede, sacudindo minhas ideias confortáveis e abrindo feridas que a gente prefere fingir que não existem.
Em minha opinião, desde o começo, enquanto assistia, me peguei pensando: “O que tô fazendo sentado nessa cadeira de cinema vendo essa bagaça?” O desconforto era nítido — proposital — e funcionou. O que parecia uma história de amor e maternidade escancarou o cheiro podre da angústia, da culpa, do abandono emocional e de uma loucura prestes a explodir.

Fogo de paixão no inicio, e chama gélida no final
A trama: um casal jovem, cheio de desejo e esperança, inicia um recomeço — casa nova, bebê chegando, sonhos no olhar. Mas, quando a realidade se impõe, nada escapa ao peso da exaustão. A mulher, recém-mãe, mergulha numa espiral de sofrimento, tomada por isolamento, inseguranças e suspeitas — e aos poucos, a vida vira prisão mental. O parceiro parece presente, mas distante; o lar, longe de ser abrigo, se transforma num campo minado de silêncio, estranhamento e abandono — e todo esse clima sufocante vai minando o psicológico dela, até que a linha entre sanidade e desespero começa a borrar.

Teve fotografia, entretando…
Visual e sensorialmente, o filme acerta feio: a fotografia suja, claustrofóbica; o som sufocante — barulhos que incomodam e que somam ao caos interno. A direção não dá saída fácil: não há redenção, final feliz ou “cura” — o que há é dor exposta, ferida aberta, realidade crua. E, justamente por isso, o incômodo vira ferramenta.
Por fim — e talvez o que mais corta a carne — “Morra, Amor” não poupa. Ele não consola, não embala no colo, não dá tapinha nas costas. A proposta é despir a ferida, mostrar o colapso psicológico, fazer da tela um espelho doloroso. Mesmo com atuações fortes e méritos estéticos — e, sim, com coragem para mostrar o que pouca gente tem estômago pra encarar — saí com mais dúvida que certeza, peito apertado, pensando no tamanho do buraco que certas dores ocupam.
Pra mim? O filme vale como exercício de desconforto, mais do que como lazer. Se você for assistir — vai com o estômago pronto. Se aguentar o tranco, talvez saia com algo perturbadoramente honesto.
