Só vem!
Para fazer essa série, esses caras devem ter fumado até os traficantes. E isso nem é uma piada, é a minha opinião após essa temporada.
Eu realmente começo a desconfiar que existe alguma substância muito diferenciada circulando naquela sala de roteiristas, porque não é possível sair tanta insanidade da cabeça de uma pessoa só.
Não há discriminação, o ataque e preconceito é distribuído por igual.
O mais curioso é que South Park não escolhe um alvo específico. Eles simplesmente zoam todo mundo. Não existe preconceito quando absolutamente ninguém escapa. É religião, política, nacionalidade, celebridade, criança, adulto… sobra para todo mundo.
Uma coisa que percebi nesta temporada é que quase não existem piadas com pessoas gordas em geral. Toda a artilharia fica concentrada no Cartman. Chamam o menino de bundão, zoam o traseiro dele, fazem piadas de todos os tipos e seguem a vida como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Outra coisa que finalmente comecei a entender foi a perseguição do Cartman ao Kyle. Depois das temporadas anteriores, ficou mais claro que muito desse antissemitismo absurdo nasce da obsessão do Eric pelo filme A Paixão de Cristo, do Mel Gibson. Na cabeça completamente deturpada dele, os judeus são culpados pela morte de Jesus e isso vira a desculpa perfeita para alimentar toda aquela perseguição sem sentido. É pesado? Muito. Mas justamente por ser uma sátira exagerada acaba mostrando o absurdo desse tipo de pensamento.
Homenagens a filmes e outras series
Entre uma loucura e outra ainda aparecem várias homenagens ao cinema e à cultura pop. O episódio inspirado em Free Willy, por exemplo, brinca com toda aquela inocência infantil sobre salvar animais, mas obviamente South Park consegue transformar isso em uma sequência completamente sem noção.
Teve também um episódio envolvendo tecnologia espacial mexicana que me pegou totalmente de surpresa. Do nada os caras resolvem mandar uma baleia para o espaço utilizando “tecnologia mexicana”, colocam mariachis, sombreros e todos os estereótipos possíveis. Quando é desenho, realmente parece que tudo pode acontecer.
Aliás, a própria abertura já prepara o espectador para o caos. A dublagem brasileira continua maravilhosa, principalmente naquele aviso dizendo que “esse desenho é péssimo e foi dublado por péssimos profissionais”. Só South Park consegue transformar um aviso desses em parte da diversão.

“-Ruivos devem morrer!” (hipocrisia e sobrevivência)
Entre os episódios que mais gostei está justamente o dos ruivos. O Cartman inventa uma teoria completamente maluca dizendo que ruivos são criaturas malignas. Os meninos resolvem dar uma lição nele pintando seu cabelo de vermelho durante a noite. O plano parecia perfeito… até que o próprio Cartman consegue transformar aquilo em vantagem.
Em poucos minutos ele cria praticamente um movimento inteiro, reúne seguidores, faz discursos inflamados e constrói uma narrativa digna de regimes autoritários. A série faz uma crítica pesada sobre manipulação de massas, mostrando como líderes conseguem convencer pessoas usando medo, mentira e fanatismo. Tudo isso através de uma criança completamente desequilibrada. É genial e assustador ao mesmo tempo.
Outra coisa que continuo achando hilária é a relação entre Saddam Hussein e o Diabo. Eu ainda não superei essa ideia completamente absurda da série transformar os dois em um casal cheio de crises, ciúmes e brigas de relacionamento. Não é nem a primeira animação que representa o Diabo dessa forma mais extravagante, mas South Park leva essa piada para um nível completamente diferente.

Somos cobaias entre Céu e inferno
Também gostei bastante daquele arco em que céu e inferno entram praticamente em guerra e os anjos acabam recrutando o melhor jogador da Terra para liderar o combate celestial. É uma mistura de videogame, religião, fantasia e humor completamente sem filtro. Parece um roteiro escrito durante uma madrugada inteira sem ninguém dizer “talvez seja melhor cortar essa parte”. Ainda bem que ninguém cortou.
No geral, gostei bastante da nona temporada. Nem todos os episódios me empolgaram no mesmo nível, alguns funcionaram melhor do que outros, mas a criatividade continua absurda. A série segue conseguindo transformar qualquer assunto em uma sátira pesada e, por mais ofensiva que seja, quase sempre consegue arrancar uma boa risada.
Agora estou entrando na décima temporada cheio de expectativa. Ainda tem muita água para rolar, muita provocação para aparecer e, conhecendo South Park, certamente ainda vou me perguntar várias vezes: “Quem foi o maluco que aprovou esse roteiro?”
E, sinceramente… mal posso esperar para descobrir.
