Já dizia Freud que quase tudo tem relação com a nossa infância.
E, olha… nessa décima temporada de South Park tem um episódio que explica, pelo menos em parte, por que o Eric Cartman virou essa figura irritante, engraçada, racista, negacionista, homicida, genocida e vários “istas”, “cidas” e adjetivos moralmente questionáveis. (RESENHA BASEADA NA MINHA OPINIÃO)
Mas, mamãe! eu quero!
Nesse episódio, a mãe dele finalmente chega ao limite. Ela percebe que o filho simplesmente não tem mais controle e começa uma verdadeira peregrinação atrás de ajuda. Primeiro procura uma babá no melhor estilo Supernanny, aquelas famosas por domesticar… digo, educar crianças impossíveis. Só que, quando ela tenta impor limites ao Cartman, acontece exatamente o contrário. O menino entra na mente da mulher, faz uma manipulação psicológica absurda, planta culpa, insegurança e consegue fazer a babá simplesmente enlouquecer. Ela abandona o caso completamente traumatizada. O mesmo acontece com outras tentativas de cuidar dele.
Como último ato de desespero, a mãe resolve contratar um famoso adestrador de animais. Sim… um adestrador de cachorros para tentar educar uma criança. E, por incrível que pareça, funciona. A forma como ele trabalha disciplina, rotina e reforço positivo realmente muda o comportamento do Eric. É aí que fica evidente que boa parte do problema nunca foi apenas a personalidade dele, mas principalmente a criação que recebeu.
Não é novidade para ninguém que acompanha a série até aqui que o Cartman é um filho bastardo. Mas, além disso, a mãe dele sempre compensou a falta de limites com mimo, culpa e uma necessidade enorme de preencher a própria carência emocional usando o filho. Em vez de tratá-lo como criança, muitas vezes ela o coloca quase como um amigo ou companheiro, fazendo todas as vontades dele.
Cartman se tornou o melhor, filho, amigo e aluno de South Park
E o resultado da educação correta aparece rapidamente. O Eric começa a comer direito, emagrece, para de infernizar o Kyle, deixa o Butters em paz, melhora as notas na escola, respeita os colegas e se transforma praticamente no aluno exemplar. É uma mudança tão absurda que chega a parecer outro personagem.
Só que o episódio guarda uma das melhores viradas da temporada. A mãe desenvolve um interesse amoroso pelo adestrador, mas ele deixa claro que estava ali apenas fazendo seu trabalho. Sentindo-se sozinha, ela tenta convencer o filho a sair com ela. Como o Eric agora prefere estudar, ela começa a fazer exatamente aquilo que sempre fez: chantagem emocional, promessas de presentes, brinquedos e recompensas. Aos poucos, ela destrói toda a evolução que ele havia conquistado e o Cartman volta a ser exatamente o monstro que sempre foi.
Quando terminou esse episódio eu fiquei de boca aberta. Foi uma das melhores explicações já apresentadas para o comportamento dele. É claro que o Cartman continua sendo responsável pelas próprias escolhas, mas fica muito evidente como a criação da mãe ajudou a moldar essa criança completamente bizarra.
Nessa T. Ele se ferrou mais que o Kenny morreu na S07
Ao longo de toda a temporada também foi muito divertido acompanhar os inúmeros planos dele dando errado. Foram várias tentativas frustradas, prejuízos, humilhações e muito choro. Não é que eu torça pelo sofrimento de uma criança… mas depois de dez temporadas vendo esse cidadão destruir a vida de praticamente todo mundo, confesso que foi bastante satisfatório vê-lo quebrando a cara de vez em quando.
O mais interessante é que esses fracassos também mostram uma evolução do personagem. Não no sentido de ele estar virando alguém melhor, muito pelo contrário. A cada episódio ele parece descobrir uma forma ainda mais criativa, absurda e assustadora de ser uma pessoa horrível. É quase um talento artístico para fazer o mal, e justamente por isso ele continua sendo um dos personagens mais engraçados da série.
No geral, gostei muito dessa décima temporada porque ela coloca bastante foco no Eric Cartman sem deixar os outros personagens de lado. Todo mundo continua extremamente ridículo, constrangedor e engraçado, enquanto o desenho mantém aquela mistura de humor pesado com críticas políticas, sociais, militares e religiosas. É aquele tipo de episódio que faz você rir durante vinte minutos e depois ficar pensando no assunto antes de dormir.
Eu praticamente teria que dividir esta resenha em três partes para comentar tudo o que acontece. Tem, por exemplo, o episódio sobre o ataque de 11 de setembro, que brinca com as teorias da conspiração de uma forma completamente maluca. Um personagem diz que foram terroristas, outro afirma que foi o próprio governo, e a história vai escalando até um ponto em que a série brinca justamente com a ideia de que governos podem alimentar teorias conspiratórias para manipular a população. A maneira exagerada como eles colocam as crianças investigando tudo isso é completamente absurda… e, ao mesmo tempo, faz você pensar.

Inferno da Terra – Uma versão tchola enrustida do Diabo
Outro ponto que adorei foi a forma como eles abordam religião. Seja falando de passado, futuro, crenças ou conflitos religiosos, os criadores conseguem transformar temas extremamente delicados em situações completamente sem noção, mas que escondem críticas muito inteligentes. Essa criatividade continua sendo um dos maiores pontos fortes da série.
No fim das contas, a décima temporada mostrou um South Park cada vez mais confiante em fazer humor pesado enquanto constrói personagens cada vez mais complexos. E, sinceramente, se as próximas temporadas conseguirem manter esse nível de criatividade, polêmica e loucura… eu só observo.
