Um grito por vingança!
Há filmes que não são feitos para entreter, mas para cutucar feridas que muitas vezes a sociedade insiste em ignorar. “Atena”, estrelado por Mel Lisboa e Thiago Fragoso, é exatamente esse tipo de obra. É um filme difícil, tanto pelo tema abordado, quanto pelas escolhas narrativas que faz. E, embora carregue falhas técnicas e narrativas evidentes, tem algo que não pode ser desconsiderado: a coragem de olhar para a dor de frente.
Mas antes de continuar devo fazer um alerta! Esta resenha aborda temas como violência sexual e doméstica, trauma e justiça por vingança. Este filme pode conter cenas que despertam gatilhos emocionais em pessoas sensíveis a esses assuntos. Da mesma forma, esta resenha contém também trechos que tratam desse tema. Por favor, NÃO LEIA caso isso lhe provoque desconforto!

TRAMA
A protagonista, Atena, é uma mulher marcada por um passado horripilante: os abusos sofridos ainda na infância pelo próprio pai. Já adulta, ela canaliza essa dor fazendo justiça com as próprias mãos, sequestrando e julgando homens acusados de violência sexual. O filme propõe, então, uma pergunta inquietante: o que acontece quando o sistema falha (e falha repetidamente) com quem mais precisa de proteção?
Mel Lisboa entrega uma atuação pouco tocante e sem exageros. Contudo, a atuação de Mel sustenta o filme, mesmo quando a trama parece se perder. Ela transforma sua dor em algo que o espectador sente no silêncio, no olhar fixo, no corpo tenso da personagem. Atena não é só uma mulher com sede de vingança, é uma mulher negligenciada pelo sistema. E ela, que até então fora silenciada, agora está tentando existir com algum tipo de dignidade.
Já Thiago Fragoso, como o jornalista Carlos, é o fio condutor da história. Ele é o observador que se choca junto com o espectador e, a media que vai descobrindo as coisas, se enfia até o pescoço na problemática. Seu papel funciona como uma ponte com o público, ainda que seu personagem seja pouco aprofundado.
ANALISANDO
É importante dizer: Atena é um filme com limitações claras. O roteiro tem momentos engessados, repetições desnecessárias e diálogos que soam artificiais. A direção opta por uma estética fria e quase teatral, o que pode distanciar o público, ao invés de aproximá-lo. Em vários momentos, sentimos que o filme poderia ter se aprofundado mais no desenvolvimento dos personagens, nos dilemas éticos que levanta e na construção de tensão. As vezes tudo parece superficial demais…
Mas, apesar disso, é impossível assistir ao filme sem ser atravessado por uma pergunta real: quantas mulheres não conhecemos que foram abusadas e nunca viram justiça? Quantas ainda sofrem em silêncio porque sabem que, se falarem, serão desacreditadas, julgadas, esquecidas? Nesse ponto, “Atena” acerta no alvo! Porque? Ele faz pensar. ele incomoda e coloca em cena uma dor coletiva que, muitas vezes, só encontra espaço na arte.
POR FIM…
Ao final, quando Atena se reencontra com seu agressor, agora envelhecido e distante, não há redenção. Há apenas a continuidade de um trauma que nunca teve onde cicatrizar. E essa escolha, apesar de abrupta, carrega uma verdade dura: às vezes, a dor não termina, ela apenas se transforma.
Este talvez não seja um grande filme no sentido técnico. Mas é um filme necessário. Porque nos força a olhar para o que é feio, desconfortável, incômodo. E porque, ainda que imperfeito, dá voz a mulheres que a justiça oficial muitas vezes cala. É um filme para quem tem estômago, sim. Mas, principalmente, é um filme para quem tem empatia. E, no fim das contas, isso importa muito mais do que uma fotografia bonita ou um roteiro redondo.
Atena estreia exclusivamente nos cinemas brasileiros no dia 31 de julho.
