Já chegou o disco voador!
Chespirito: foi sem querer querendo A série biográfica de Chespirito chegou ao HBO MAX e dividiu os fãs mas teve um saldo positivo.
Enredo
Na Cidade do México, o jovem Roberto Bolaños tenta ganhar a vida como pode. Aos poucos, percebe que tem talento para escrever e começa a investir nisso. À medida que as pessoas notam sua genialidade, ele conquista fama e reconhecimento. Cria personagens como Chapolin Colorado e a Turma do Chaves. No entanto, o sucesso também traz inveja e rancor, que aos poucos afetam sua vida pessoal. Com o tempo, Bolaños acaba se afastando da própria família.
O gênio
Quando um dos maiores roteiristas e criadores do mundo ganha uma série pra chamar de sua, é motivo para parar tudo e prestar atenção, não apenas porque ele é uma figura histórica para a televisão e para a comédia, mas porque mostra como nem sempre pessoas geniais são naturalmente boas ou inocentes. E que sua genialidade não veio do nada, mas foi uma combinação de fatores que juntos deram origem a um ser humano cheio de falhas, mas um profissional extraordinário.
Vemos duas fases da vida de Bolaños: uma mais jovem, enquanto iniciante como escritor, interpretado por ivan arango, e outra mais velha papel de Pablo Cruz, já trabalhando na televisão e futuramente criando Chapolin e Chaves, muitas vezes a contragosto de muita gente dentro da emissora.
Os eventos da série acompanham sua trajetória até meados dos anos 70, após o especial de Acapulco (ou Guarujá, na versão brasileira clássica), mostrando o início da vida de Chespirito como autor e os anos em que seus personagens já começavam a se desgastar. Parte do elenco foi saindo por diversos motivos. Vale lembrar que Acapulco foi a última fase de Carlos Villagrán como Quico, e a música “Boa Noite, Vizinhança” inclusive foi escrita como uma despedida e homenagem ao ator e ao personagem.

Divulgação HBO MAX
Se aproveitam da minha nobreza
Vale mencionar o elenco como um dos grandes acertos da série, tanto em atuação quanto na caracterização. Apesar da dublagem em português não entregar isso por completo, se você assistir no áudio original em espanhol vai perceber como as vozes dos atores se parecem muito com as dos originais. Fica aqui o destaque para Miguel Islas, que interpreta Seu Madruga (Don Ramón) e consegue ter uma voz idêntica à de Ramón Valdés, o intérprete original do personagem.
A série teve a consultoria de integrantes do elenco original e das famílias daqueles que já não estão vivos. Os únicos que não foram consultados — ou que não cederam os direitos — foram Florinda Meza e Carlos Villagrán, que na série viram Margarita e Marcos, pois ambos tiveram um papel conturbado na vida de Chespirito e são encaixados na trama como obstáculos na trajetória do autor. Os papéis foram interpretados por Bárbara Lopez (Margarita) e Juan lacerda (Marcos).
Mas, enquanto a série acerta no elenco, peca no roteiro, deixando tudo muito chapa-branca. Parece que Roberto Bolaños foi um predestinado, um abençoado, um gênio que só errou por causa dos outros. Mesmo quando comete falhas, a culpa recai sobre terceiros, como se ele fosse uma vítima das circunstâncias, sem consciência das consequências de seus atos. Isso acontece, em parte, porque o roteirista e produtor da série é o próprio filho de Chespirito. Assim, muitos dos problemas vividos por ele e pela família são colocados nas costas de vilões que a série inventa.

Andrea Noli como Bruxa do 71. Miguel Islas como Seu Madruga, Paola Montes como Chiquinha e Pablo Cruz como Chaves // Reprodução HBO MAX
Volta o cão arrependido…
No fim, Chespirito acaba sendo retratado como alguém inocente, que sempre fala “Se aproveitam de minha nobreza”.
Chespirito foi, sem querer querendo, um homem de coração muito grande. Escritores e artistas em geral verão nas atitudes dele um reflexo de suas próprias experiências. Ele era o tipo de autor que transformava tudo o que vivia em conteúdo — ou acabava sendo alvo e transformando isso em criação. Isso torna a série ainda mais brilhante ao mostrar, na prática, como funciona a cabeça de um artista.
Tendo seus pontos fortes, fracos e discutíveis, é uma boa série para conhecer a vida de um dos maiores roteiristas da televisão e da cultura. Pois já diria um velho e conhecido ditado:
“Quem ri por último com ferro será ferido…”
Não, acho que era “Com grandes poderes se vai a Roma…”
Água mole, pedra dura… em terra de cego…
Alguma coisa assim.
A série está completa no streaming HBO Max.
Texto por: David Alves
