Pensa num romance de terror com pitadas de comédia, sátira e muita provocação?
O filme de hoje, se é que se pode dizer apenas “filme”, foi uma daquelas obras que me atravessam por dentro e me deixam com os sentidos amolecidos. Falo do Drácula (2025), essa releitura cinematográfica que chegou para além do terror ou do mito. Aqui, o que se apresenta é quase uma reencarnação estética e emocional de um personagem histórico, literário e simbólico. Sim, ele ainda é o pai dos vampiros, o demônio para uns, o imortal para outros… mas, acima de tudo, é o homem apaixonado, devoto e ferido. Essa versão toca fundo numa camada que geralmente passa batido nas outras versões: o amor profundo e devastador que carrega. Fiquei embriagado não só com a densidade visual da obra, mas com o tanto que ela me fez pensar — sobre amor, sobre tempo e sobre sacrifício. Leia Minha opinião sobre este filme

Invejável paixão, tipo realeza
Logo nos primeiros minutos, o filme nos entrega uma Romênia gótica, densa, úmida, de cores pesadas e um clima quase litúrgico. Lá, Drácula ainda é humano. Um guerreiro respeitado, um líder imponente… mas, acima de tudo, um homem que ama. A relação dele com a princesa é arrebatadora. A forma como se olham, se tocam, trocam juras, arrepios e calor me deixou desnorteado.
Há uma intensidade naquele romance que desafia até o mais cético. É uma paixão que, ao ser interrompida pela guerra, já deixa um presságio de tragédia. O roteiro acerta em cheio ao apresentar a separação como o verdadeiro catalisador da transformação dele. A perda, a dor e a sensação de injustiça o empurram para o abismo. Ele busca consolo na Igreja, mas recebe silêncio. E ali, diante de um altar manchado de sangue e lágrimas, ele amaldiçoa tudo, inclusive a Deus. Aquilo não é vilania — é desespero. Um homem que escolhe a eternidade para continuar procurando um amor.
Saudades x Revolta
São 400 anos de busca. E não é uma busca casual. É um projeto de alma, uma devoção que ultrapassa a sanidade. O filme desenha isso com uma beleza de cair o queixo: as mudanças no cenário, a passagem do tempo, os disfarces, os estudos, os rituais, a solidão. Quando ele enfim reconhece traços de sua amada reencarnada numa jovem do século XXI, o mundo volta a fazer sentido. Mas é aí que o filme ganha novas camadas. O amor dele é real? Ou é só uma obsessão fabricada pelo luto? A jovem, por sua vez, é uma mulher livre, contemporânea, e se vê diante de uma energia que a hipnotiza, mas também a amedronta.
O embate entre o que ela é e o que ele deseja é conduzido com muita elegância e ambiguidade. Tem paixão, sim. Mas também tem medo. Tem entrega, mas também resistência. A direção brinca com esses contrastes sem nunca tomar partido — ela deixa a gente remoer.

Paris Filmes
Senti falta de alguém aqui, Cadê vc Jonny Depp??
Visualmente, o filme é uma sinfonia de sombras. Cada cena parece ter saído de um quadro. Há momentos em que eu tive certeza de estar vendo referências diretas a Caravaggio, a Rembrandt, e até composições modernas, como em exposições fotográficas performáticas. Os figurinos do Drácula, em especial, são um show à parte. Cabelos penteados como esculturas, casacos longos com texturas de veludo e detalhes de renda, camadas de roupa que falam por si. E é aí que minha mente doida fez a conexão que não consegui ignorar: o visual dele, principalmente nas cenas mais íntimas ou quando está espreitando no escuro, me lembrou fortemente o Willy Wonka do Johnny Depp. Não é deboche, é imagem mesmo.
O mesmo ar andrógino, meio excêntrico, um gênio isolado, sensível, quase alienígena. Me vi repassando mentalmente o filme todo com Johnny Depp no papel, imaginando como seria essa entrega — talvez mais cínica, mais teatral. E fiquei perturbado com isso.
Prometeu nada e entregou tudo!
Mas é importante dizer: o ator que interpretou o Conde em Drácula (2025) deu conta do recado com força. A atuação é contida, cheia de olhares demorados, silêncios bem colocados, e uma voz que carrega séculos de dor. E o texto… ah, o texto! Tem falas que beiram o poético. São frases que você quer anotar na parede. Não é exagerado, nem forçado — é trágico com elegância. E mesmo as escolhas ousadas do roteiro (como trazer personagens históricos e figuras bíblicas em metáforas visuais) não parecem gratuitas.
O filme está todo costurado com cuidado. E embora ele tenha cenas de sangue, tensão e criaturas assustadoras, ele não é um terror tradicional. É mais um romance gótico existencialista, daqueles que te deixam pensando dias depois. E como se não bastasse, ainda me pegou refletindo sobre questões bem humanas: o que é o amor, afinal? Até onde ele deve ir? Quando vira prisão? Quando vira redenção?
Outro ponto que me pegou foi o tempo do romance. Eles eram noivos, não casados. E mesmo assim, é como se o vínculo deles atravessasse o corpo e o tempo. Será que isso é possível? Será que existe isso de almas gêmeas, de reencontros predestinados? Ou estamos apenas projetando nossos vazios? O filme não responde. E talvez por isso mesmo me pegou tanto. O final não é surpreendente para quem já conhece a história original, mas é executado com tamanha beleza e entrega que, mesmo esperando, a gente sofre.
E quando os créditos sobem, fica aquele vazio bom. Aquela dopamina de quando você sabe que acabou de assistir algo grande. Algo feito com alma. É um filme fechado, redondo, mas deixa a gente sonhando com mais. Com uma sequência? Talvez. Com um universo expandido? Quem sabe. Mas acima de tudo, com mais histórias que tenham coragem de ser assim: sentimentais, intensas, lindas e devastadoras.
Por @henriquepheniato
