
Enredo
Adaptações e referências
Adaptações de clássicos acontecem com frequência. Obras como Frankenstein e Drácula estão em domínio público, então qualquer um pode criar novas versões — só não dá pra usar os visuais icônicos da Universal dos anos 40, como o monstro verde de cabeça chata.
Ao longo dos anos, várias mídias revisitaram essa história. Tivemos Mary Shelley’s Frankenstein (1994), dirigido por Kenneth Branagh e estrelado por Robert De Niro. Depois veio Victor Frankenstein (2015), com James McAvoy e Daniel Radcliffe, que trouxe uma vibe meio Sherlock Holmes do Robert Downey Jr em estética e humor. A série Penny Dreadful também explorou muito bem a complexidade do monstro e toda a filosofia sobre vida e morte, respeitando bastante o espírito da obra original.
Mais recentemente, vimos Frankenstein em Creatures Commandos. E claro, não dá pra esquecer de Pobres Criaturas (2023), com Emma Stone, que bebe direto da fonte de Mary Shelley ao falar sobre criação, identidade, pertencimento e aquela relação entre um criador que se acha Deus e sua criação que tenta entender de onde veio e para onde vai.
Então, sim: Frankenstein já inspirou uma centena de obras.
Mas o que faria a versão do Guillermo Del Toro diferente das outras?
A resposta tá na pergunta.

Guillermo Del Toro e Oscar Isaac no set de gravação
Guillermo Del Toro
O diretor e roteirista responsável por Blade II, Hellboy, O Labirinto do Fauno, Círculo de Fogo, A Forma da Água (que levou Melhor Filme e Melhor Diretor no Oscar) e o mais recente Pinóquio que ganhou o Oscar de Melhor Animação já deixou bem claro em toda sua carreira que monstros são sua linguagem preferida.
Del Toro sempre mostrou a humanidade em seres que estão longe de serem humanos. Aliás, muitas vezes eles acabam sendo mais humanos que os humanos da trama. Ele usa a monstruosidade como ferramenta pra contar histórias sensíveis, e isso sempre foi parte da identidade dele.
E, por mais que muita gente trate Frankenstein só como terror, a obra original é muito mais que isso. Ela é um marco da ficção científica moderna, fala de criação, responsabilidade, ciência, ambição e propósito. A criatura não nasce pra ser assustadora: ela nasce pra tentar se entender. O gore existe, claro, mas nunca foi a alma da história.
Nesse ponto, Del Toro entra como uma luva.

Jacob Elordi como O monstro – Material de divulgação.
O Filme
Falando do filme diretamente: Oscar Isaac entrega um Victor Frankenstein cruel, orgulhoso e incapaz de lidar com as respostas das próprias perguntas. Já Jacob Elordi foi um acerto gigantesco como o Monstro (e é justo chamá-lo assim, já que é “filho” de Frankenstein também).
Com seus 1,96 m de altura, Jacob traz um monstro grande, forte e imponente, mas também carismático, simpático e emotivo. Desde Hellboy, Del Toro sabe dosar maquiagem e efeitos práticos pra manter expressões faciais humanas. Isso faz toda a diferença: o monstro não tenta se aproximar da gente — somos nós que acabamos nos aproximando dele.
O filme se divide em duas partes: primeiro o ponto de vista do Victor, depois o da criatura. E aos poucos a gente vai entendendo os motivos pelos quais cada personagem está ali: uns pra impulsionar o doutor, outros pra criticá-lo, especialmente a personagem da Mia Goth (neta da brasileira Maria Gladys). Ela aparece de mansinho, mas entrega um peso enorme na trama, ainda mais porque interpreta dois personagens fundamentais pra entender a mente de Victor. Freud, sinceramente, estaria batendo palmas.

Oscar Isaac como Victor Frankenstein – Material de divulgação.
Temas e Simbolismos
O filme traz discussões sobre vida e morte, pai e filho, Deus e sua criação. Se na Bíblia Deus descansou depois de criar o homem, aqui Victor foge assim que vê o que fez. Ele passa toda a narrativa carregando o peso de não entender ou não querer entender a natureza dos próprios atos. Ele se dedicou ao processo, mas nunca ao resultado.
Enquanto isso, a criatura carrega o fardo de ter sido abandonada pelo seu criador. O monstro recebe culpa e medo por coisas que não causou, e é chamada de monstro muito antes de saber o que a palavra significa. No entanto, com o tempo, vai descobrindo que não é obrigada a ser aquilo que fizeram dela.
No fim, Frankenstein, nas mãos de Guillermo Del Toro, vira uma história delicada, cheia de simbolismos, e que deixa aquela pergunta que acompanha a obra desde sempre:
Afinal, quem é o monstro?
Isso depende de quem estiver contando a história.
Texto por Caio David Alves.
