O multiverso já cansou, e fico feliz que ainda existam fãs que ainda estão empolgados com o tema, mas a gente merece mais né?
Divulgação Marvel Studios.
A Saturação do Multiverso na Marvel
A segunda temporada de Pacificador já estreou, mas ainda não falaremos dos episódios em si. Em vez disso, vamos discutir um recurso de roteiro que foi tão explorado nos últimos anos que acabou se tornando repetitivo: o multiverso. Nesse ponto, James Gunn decide utilizá-lo de forma mais inteligente.
É verdade que o roteiro de Pacificador pode soar fraco em alguns momentos; no entanto, ao menos o uso do multiverso tem um propósito claro. Isso contrasta com a abordagem da Marvel, que em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura trabalhou o conceito quase exclusivamente como fanservice o que, até certo ponto, é aceitável.
Em Sem Volta para Casa, por exemplo, o grande destaque foi reunir três Homens-Aranha em um único filme. Contudo, olhando em retrospectiva, percebemos que a obra se apoia quase inteiramente na nostalgia de rever Andrew Garfield e Tobey Maguire. Já em Doutor Estranho, a chuva de participações especiais acabou sem função narrativa real: John Krasinski como Senhor Fantástico, Capitã Carter, Raio Negro e até o retorno de Sir Patrick Stewart como Professor Xavier (que, vale lembrar, voltará em Vingadores: Doomsday). A piada de Deadpool com Wolverine, quando ele diz que interpretará o herói até os 90 anos, nunca fez tanto sentido.
Além disso, tivemos três temporadas de What If…? que, infelizmente, ficaram muito abaixo do potencial da proposta. Nesse contexto, os verdadeiros destaques foram Loki e, agora, Pacificador. Ambos utilizam o multiverso não como enfeite, mas sim como parte fundamental da narrativa.
Divulgação A24
Quando o Multiverso Funciona
A Marvel e o Multiverso como Fanservice
Todos esses exemplos mostram como o multiverso foi usado e reinventado ao longo dos anos. A Marvel, por outro lado, saturou o conceito. Logo após a Saga do Infinito, anunciou que a próxima seria a Saga do Multiverso, iniciada em WandaVision e nas séries do Disney+.
A partir daí, o público foi obrigado a acompanhar todas as produções para entender o que estava acontecendo. Personagens que não apareciam em um filme X eram desenvolvidos em uma série Y, e essa conexão forçada cansou.
Com o tempo, o recurso virou perfumaria um enfeite para atrair o público ao cinema não pela trama, mas pela chance de rever rostos antigos. As participações especiais vieram embaladas em nostalgia, e nada além disso.
Ver os três Homens-Aranha juntos foi incrível, mas serviu apenas como fanservice. O mesmo vale para os Illuminati em Doutor Estranho e os X-Men em As Marvels. Quando existe honestidade, funciona melhor. Deadpool & Wolverine é o exemplo: não promete mudar o universo Marvel, apenas entregar uma aventura descompromissada e divertida. É um filme que você pode assistir sem ter passado por dezenas de outros, sem precisar de maratona ou cursinho para entender uma linha de roteiro.
Hoje, a impressão é clara: a Marvel não sabe o que fazer com o multiverso. Parece que tenta colocar a corrente na bicicleta com ela já em movimento. Para piorar, Jonathan Majors comprometeu todo o plano em torno do vilão Kang. O precisou substituí-lo pelo Robert Downey Jr. como uma variante do Doutor Destino para assumir o papel de vilão da saga.

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Pacificador e o Novo DCU
James Gunn pegou um detalhe da primeira temporada e transformou em uma expansão para o universo que agora controla. Chris descobre que seu pai não guardava apenas um arsenal em um universo compacto, mas também possuía portas que levavam a outras realidades. Em uma delas, sua família continua viva — e sua vida é boa.
Nesse universo alternativo, o pai, que na realidade original era um supremacista neonazista, aparece como um defensor da justiça. O irmão, que Chris matou, reaparece vivo e ao seu lado. Os três ganham a admiração da população e se tornam símbolos de heroísmo e honra. Essa inversão de papéis não apenas aprofunda o drama pessoal de Chris, como também dá ao multiverso uma função narrativa concreta: explorar o que poderia ter sido e o que ainda pode ser.
Na cena em que Chris quase chora ao reencontrar o irmão e diz que o ama, o multiverso se mostra uma ferramenta clara de desenvolvimento de personagem. O recurso também gera humor e fanservice, ainda que de forma involuntária, mas o núcleo emocional reforça quem o Pacificador se tornou. Essas cenas bastam para mostrar a evolução do personagem desde O Esquadrão Suicida até aqui.
Vale lembrar que o filme The Flash tentou algo semelhante com Barry e sua mãe talvez o único momento realmente marcante daquele filme.
Usar o multiverso para revelar o lado humano de figuras extraordinárias se prova uma escolha poderosa. Quando a narrativa engrandece o personagem e faz o público se importar com suas dores, ela cumpre seu papel.
Já o multiverso usado apenas para trazer personagens antigos vira reciclagem. Alguns projetos, como Deadpool, conseguem explorar isso com inteligência. Outros, porém, não passam de fanservice barato.
Texto por: David Alves

