Este é um tipo de filme que eu não recomendo assistir à noite.
Sério mesmo! Não nos responsabilizaremos, de forma alguma, caso você tenha pesadelos lúcidos ou qualquer outro tipo de perturbação durante o descanso. A minha opinião sobre o filme de hoje, em poucas, porém complexas palavras, nasce do fato de eu novamente não ter assistido ao trailer — uma prática que, aos poucos, adotei para não criar expectativas erradas. Afinal, parece até que virou moda: a equipe que divulga o terror não é a mesma que grava e edita. E aí o que acontece? Um filme final que, muitas vezes, decepciona. Contudo, esse aqui… não. Definitivamente não. Nos últimos três anos, vi bons títulos de terror pelo Hospício Nerd. Uns me fizeram rir bastante. No entanto, esse aqui me fez sentir. Me fez olhar pros lados, desconfiar se tinha alguém perto, e o pior: essa sensação não passou até agora.

Sensação estranha de alguém me observando
Inclusive, escrevo essa resenha neste momento, sentado num banco… dentro de uma igreja católica. Pois é. Tem um padre ali no canto rezando missa, e eu aqui, só observando e desconfiando de qq tipo de vulto ou alguma manifestação espiritual aleatória. A qualquer barulho estranho, já me vejo pedindo a bênção do homem. Não me lembro da última vez que me confessei, mas confesso que esse filme me provocou uns pensamentos profundos sobre tudo que já ouvi sobre exorcismo. O filme O Ritual foi, sem dúvida, muito bem feito. Baseado em fatos reais — o que, por si só, já serve de gatilho pra mente da gente viajar. O caso da jovem Emma, ocorrido em 1928, envolve um processo intenso de libertação espiritual e é o ponto de partida pra trama.
O que mais me chamou atenção é que, mesmo sendo uma produção recente, os ângulos escolhidos pra mostrar a igreja são de um capricho visual que não se vê mais. Diferente de outros filmes que tratam a arquitetura religiosa como algo caído e malconservado, esse aqui valoriza a beleza. Resultado? Uma verdadeira poesia imagética. Além disso, a direção opta por planos que, às vezes, parecem coisa de videomaker amador — com pouca estabilização, imagens trêmulas e um certo improviso. Fiquei em dúvida se era pra simular o olhar de alguém observando ou se era só escolha estética mesmo. Isso pode incomodar em certos momentos, é verdade, mas também ajuda a compor a atmosfera do filme.
Os reflexos nos espelhos, os pequenos efeitos especiais (nada exagerados, diga-se de passagem) e o uso intenso de maquiagem fizeram a diferença. Terror raiz é isso: suor, sangue, vômito e lesão bem feita. Ainda que não chegue ao nível de O Exorcismo de Emily Rose em intensidade, ele entrega uma carga dramática mais densa. Os diálogos sobre fé, a hierarquia dentro da igreja e a função de cada personagem (o padre visitante, o padre local, a madre superiora…) trazem uma tensão crescente. E tudo isso conversa, de maneira certeira, com a descrença geral dos personagens. Resultado? Um roteiro que ganha ainda mais força. E você percebe que a história não é só sobre possessão, é sobre o quanto a fé institucional virou rotina vazia.
A trilha sonora, por sua vez, funciona lindamente. Os efeitos sonoros te pegam desprevenido e complementam bem a experiência. Tomei uns bons sustos — e, sim, confesso: dei umas risadas também. Afinal de contas, já virou hábito rir de umas cenas específicas em filmes de terror. Porém, esse aqui é diferente. Se eu não fosse uma pessoa preparada, com estrutura emocional, eu teria pesadelos por semanas. O filme cutuca o medo real, o medo ancestral, e te faz pensar: “por que Deus deixa isso acontecer?”. A sensação que fica é que aquilo tudo aconteceu não pra punir a moça, mas pra despertar a fé adormecida nos outros. Ou seja: a escolha divina não foi um castigo, mas sim uma lição pra quem já tinha perdido o caminho espiritual.
Preciso me confessar e comprar um crucifixo de proteção após essa
Enfim, esse foi o melhor filme de terror que assisti nos últimos tempos. Me abalou, é verdade. Mas também me agraciou como cinéfilo. É uma obra cinematográfica muito bem realizada — com roteiro, pesquisa, direção, elenco, tudo encaixado com precisão cirúrgica. Portanto, eu super indico, mas com ressalvas: se você é fraco emocionalmente ou vive tomando susto com panela caindo no escorredor, talvez seja melhor passar longe. E, sinceramente, seria até bom ter um padre presente durante a sessão, porque vai que alguém resolve se manifestar no meio do filme, né?
Por: @henriquepheniato
