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“O Sobrevivente” chega para 2025 como quem joga uma granada no chão e avisa: corre quem quiser continuar respirando. Edgar Wright pega a história de Stephen King, sacode o pó do futuro distópico e entrega um filme que parece ter saído diretamente de um reality show maligno projetado por um algoritmo que come impulsos humanos no café da manhã.
A trama segue Ben Richards, vivido por Glen Powell, que aqui funciona como um tipo de “cara comum com a paciência no limite da física”. Ele aceita entrar num game show em que o prêmio é a sobrevivência — literalmente — porque sua filha precisa de tratamento e o governo só libera benefícios para quem se torna entretenimento público. A velha fórmula: miséria como espetáculo, sofrimento como produto, audiência como juíza suprema. Nada muito distante do tipo de coisa que a humanidade adoraria assistir comendo pipoca.

BBB ao estilo Round 6!
O jogo, transmitido para o país inteiro, é uma caçada contínua. Caçado por assassinos estilizados como se tivessem sido desenhados por designers de skins de videogame, Richards vai percebendo que o grande inimigo não são os perseguidores… é a engrenagem inteira. Wright filma essa paranoia com uma agilidade quase musical; as cenas têm aquele senso de coreografia que só ele consegue, como se até o caos tivesse metrônomo.
Glen Powell segura o filme com um carisma nervoso, e Josh Brolin aparece como o produtor do programa com a energia de quem poderia vender a própria alma em pay-per-view. Ao redor deles, o mundo ruído, o governo indiferente e o público sedento fazem o papel de muralha invisível — e a história funciona justamente porque lembra o tempo todo que Richards não está lutando só contra armas, mas contra narrativa.

É um filme que olha no espelho e sabe que é um comentário social tanto quanto é entretenimento. Não tenta esconder isso. Não pede desculpas. Mostra o absurdo e te pergunta: “isso é mesmo absurdo… ou só não estreou ainda?”
O ritmo é intenso, mas não gratuito. A violência está lá, evidente, mas sempre servindo ao desconforto narrativo e ao humor negro que Wright deixa escapar nas frestas. Tem tensão, tem suor, tem crítica à mídia, ao governo, ao público e até ao próprio herói. É a adaptação mais próxima do espírito de King desde que King parou de dar entrevistas reclamando de adaptações.
No fim, “O Sobrevivente” não é só sobre correr. É sobre o tipo de mundo que decide transformar essa corrida num espetáculo nacional. E sobre o que acontece quando o alvo decide não aceitar o roteiro.
Resenha By: Ranne Artur.
