Nem Tarantino, nem Shakespeare teriam peito pra produzir algo tão ousado quanto esse filme que eu vi hoje.
Escrevo essa resenha com meu subconsciente se contorcendo de dentro pra fora, tentando encontrar palavras pra expressar minha satisfação total com esse trabalho audiovisual. Que filme satisfatório! E digo isso porque, de início, quando vi aquele selo “FSA – Fundo Setorial do Audiovisual”, logo pensei: Lá vem mais um filme brasileiro sem pé nem cabeça, daqueles que, sinceramente, deixam a desejar. Mas não, ”cnpjoto”. Em minha opinião, aqui o papo é outro. O filme começa quebrando expectativas — e termina te deixando com aquele gosto de quero mais.
Logo de cara…
…ele puxa uma citação antiga sobre enforcados, que eu não lembro com exatidão, mas gira em torno de uma figura que tinha seu último dia de alforria: podia comer, beber, transar com várias mulheres no prostíbulo… e, ao final do dia, era enforcado. Embora essa pareça ser a premissa inicial do filme, ele não segue por aí. Pelo contrário, vai por um outro caminho — um caminho mais sombrio e ainda mais interessante. A história se desenrola mostrando uma família poderosa envolvida em esquemas criminosos, especialmente ligados ao jogo do bicho. E, à medida que o enredo avança, o que parecia uma história qualquer se revela uma trama carregada de dilemas morais, conspirações internas e um realismo tão cruel que comecei a pensar: mano, isso aqui é ficção mesmo?

Ao mesmo tempo, o filme bate na nossa cara com reflexões provocantes. Um dos personagens — criminoso, bandido, seja lá como quiser chamar — expressa o desejo de que a polícia atue com rigor e justiça, prendendo os criminosos certos, sem violência desnecessária. E aí a hipocrisia escorre pelo canto da boca, porque o cara fala isso como se ele mesmo não fosse parte do problema. Mas é aí que o filme te ganha: ele trata tudo isso com uma poética crua, encenada de forma primorosa, com interpretações que te fisgam. A atuação dos envolvidos transforma esse paradoxo em algo absurdamente envolvente. A cada fala, a cada gesto, o filme te chama pra dentro dele, e você se vê desejando interagir com a cena, mudar os rumos da história como se fosse real.
Poesia, realidade, quase remissão por minha parte
Além disso, tem momentos de delicadeza que rasgam o coração. Em especial, uma fala simples de um personagem me pegou de surpresa: ele diz sentir saudade de comer arroz com feijão e ovo frito com a gema mole derretendo no prato. Simples, né? Mas é nesse detalhe que o filme te mostra o passado, a infância, o valor das memórias. Essa fala entrega mais do personagem do que qualquer flashback conseguiria. É uma fala tão humilde, tão verdadeira, que me fez sentir dor. Ao mesmo tempo, me vi tentando justificar o porquê daquele personagem ter se tornado o dono de um cartel de jogo do bicho. E o mais louco? Você começa o filme achando que ele e a esposa são só mais dois figurantes de um filme ruim. Mas não… Do nada, a obra se transforma numa experiência intensa.
Um delicioso suco de cinema
O desenvolvimento da narrativa é feito com tanto cuidado, com tanta atenção aos detalhes, que você percebe logo que aquilo foi construído com carinho. Por mais que algumas viradas sejam até previsíveis, o filme tem início, meio e fim — e isso é raro nos tempos de hoje. A progressão da história é gradual, certeira, e o desfecho é daqueles que fazem sentido. Dá até vontade de ver uma série derivada, explorando o passado dos personagens, tamanha é a construção bem feita dessa trama. Cada camada da narrativa revela mais profundidade, mais motivo, mais humanidade. Não tem como assistir e não se envolver.
Por fim, finalizo essa resenha com nota 10. E não é exagero! Digo com toda certeza que, em quatro anos de Hospício Nerd, esse foi o melhor filme que já assisti e a melhor cabine da qual já participei. Entre os filmes nacionais que guardo com carinho na memória — como O Auto da Compadecida e Tropa de Elite (as duas partes) — este Os Enforcados entra com força. Um filme brasileiro muito bem feito, com coproduções gigantes, distribuição da Paris Filmes e um time envolvido que merece palmas. Estou completamente endorfinado por essa obra. Parabéns a todos os envolvidos.
por @henriquepheniato
