{Resenha} Chromatica - Lady Gaga - Hospicio Nerd

Prepare-se para entrar no mundo de Chromatica

Após um adiamento devido ao avanço da pandemia global causada pelo novo coronavírus, o momento tão aguardado pelos little monsters e fãs de música pop finalmente chegou: Chromatica está entre nós! 

Reprodução: Twitter

 

Lançado em 29/05, Chromatica é o sexto álbum de estúdio da cantora Lady Gaga e traz seu retorno triunfal ao dance pop, sonoridade que marcou vários momentos de sua carreira. 

Após o lançamento de ArtPop em 2013, que teve recepção morna de crítica e público, Gaga enveredou por um caminho de experimentações artísticas. Em 2014, lançou Cheek to Cheek, projeto de jazz criado em colaboração com Tony Bennett, composto por músicas de populares compositores de jazz. A proposta da dupla era levar o gênero para gerações mais jovens. Já neste trabalho, Gaga demonstrava interesse em explorar sons e conceitos diferentes daqueles que compunham suas obras anteriores. 

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Em 2016, a cantora se distanciou ainda mais de seus projetos passados, em sonoridade e em visual, quando lançou seu álbum solo “Joanne”, com produção de Mark Ronson, que voltaria a trabalhar com ela posteriormente na trilha sonora do filme “Nasce Uma Estrela”. Apesar do conteúdo lírico dos álbuns de Gaga sempre carregarem um teor pessoal, “Joanne” foi um projeto especialmente íntimo por ter seu nome e músicas inspirados na falecida tia da cantora e carregar histórias familiares. O disco aliou melodias country e soft rock, pegada acústica e intimista, vocais limpos e emocionados à temas muito pessoais e um visual mais “cara limpa” e genuíno por parte da cantora. O trabalho era mais sobre Stefani Germanotta (nome verdadeiro da artista, que é descendente de italianos) do que Lady Gaga. 

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Assim como outros trabalhos artísticos de Gaga desde então, Joanne provocou o início de uma mudança profunda na percepção artística da cantora por parte de público e crítica, introduzindo uma nova faceta visual e musical de Gaga, e realçando sua qualidade vocal e seu trabalho de composição. Essa nova identidade foi sacramentada com o sucesso do filme “Nasce Uma Estrela” em 2019, estrelado por Gaga ao lado de Bradley Cooper, cuja trilha sonora foi composta por ela em parceria com Mark Ronson e outros produtores que ela trouxe de “Joanne”. Seu trabalho no filme lhe rendeu muitos prêmios, dentre eles o Oscar de Melhor Canção Original e uma indicação à Melhor Atriz. 

Bradley Cooper e Lady Gaga em cena de 'Nasce uma estrela' — Foto: Divulgação

Reprodução: G1

A trajetória de carreira das divas pop possui fases padrões que podem ser facilmente identificadas se pararmos para fazer uma análise e traçar paralelos. Aquele início mais dentro da caixinha, mais tímido, surfando na onda do ritmo que está em alta na época; a fase mais rebelde e/ou mais sexy; a mais experimental e autêntica, menos comercial; o retorno às raízes, etc. De Britney Spears à Miley Cyrus, passando por Rihanna e Beyoncé, é possível identificar esses atos em suas discografias. O mesmo acontece com Gaga, mas seu diferencial em comparação a muitos artistas é que, ao traçarmos uma linha do tempo de seus trabalhos, apesar de ficar clara uma evolução em todos os aspectos, além de uma assinatura autoral que vai se desenhando gradativamente de forma cada vez mais nítida, existe uma coesão que une todas as suas empreitadas. Suas fases não parecem tentativas dispersas de se encontrar artisticamente, porque Gaga nunca esteve perdida. Quando perguntada em um talk show se ela precisou “atuar” de fato em “Nasce Uma Estrela”, já que Ally, sua personagem, é tão próxima de seu verdadeiro eu, por baixo dos adereços e performances, Gaga respondeu que, na verdade, ela era muito diferente de Ally, pois nunca duvidou de si mesma. As pessoas acham que a verdadeira Lady Gaga é o rosto e a voz que moram embaixo de todos os figurinos bizarros e megalomaníacos utilizados pela cantora em seus trabalhos, mas como ela mesma já explicou, todas essas facetas são ela. Sua identidade, assim como sua arte e suas referências, é múltipla, diversa, fluida, e seus trabalhos refletem isso. A cantora passeia por estilos não tentando se encontrar, mas por saber exatamente quem é e ela é muitas. 

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Gaga chegou em 2020 anunciando seu novo projeto, Chromatica, possuindo agora uma imagem bastante diferente da que lhe era atribuída na época de sua revelação, ao final dos anos 2000. Para a surpresa de alguns e alegria de muitos, a cantora disse que esse trabalho mergulharia no dance pop característico do início de sua carreira. O que poderia ser um passo atrás, uma reciclagem de seus trabalhos antigos, se mostrou na verdade um retorno à sonoridade que aprendemos a associar à Lady Gaga, porém com muito mais maturidade e firmeza. Ao longo das 16 canções de Chromatica, a cantora nos guia por uma jornada de cura e aceitação através da música e da arte,  pois, segundo ela, o som a curou em períodos difíceis de sua vida e o fez novamente durante a concepção do álbum, e é essa a experiência que ela quer passar para quem o ouve. A música é feita em uma escala cromática e a capa do disco traz uma onda senoidal, que é o símbolo matemático do som. Com Chromatica, Gaga inspira e mostra saber exatamente quem é e o que tem a dizer, porque sim, não se engane, embalado por melodias dançantes e contagiantes, o texto é forte, claro e direto. 

Com o auxílio dos DJs Axwell e Skrillex, participação de vários produtores e principalmente a mão de Michael Tucker ou BloodPop, como é conhecido, a cantora nos convida a embarcar com ela em uma jornada de desafios e tristezas atravessados pelo poder da cura que o som encerra. Em entrevista ao InStyle, Gaga afirma que as músicas contam a história de sua vida. As letras cantam aquilo que ela guarda em seu coração, tanto a tristeza e dor, quanto a luz, com uma sonoridade divertida e eletrônica. Segundo ela, “é como se a música te desse permissão para seguir em frente. Mesmo se você teve o pior dia de sua vida, está tudo bem em dançar”. 

 

Chromatica I

Instrumental, Chromatica I é a primeira de três faixas homônimas ao álbum que introduzem e separam seus três segmentos. Com uma sonoridade épica e emotiva, a música inicia o mergulho na jornada sonora e emocional proposta pelo disco, preparando o terreno para a segunda faixa, Alice.

 

Alice

 

Apesar da melodia leve e dançante, o texto de Alice fala sobre dor. E ainda que nela Gaga cante que está cansada e enjoada de acordar gritando com toda a força de seus pulmões, numa alusão à sua luta contra a depressão e a fibromialgia, ela afirma que não vai desistir, continuará procurando pelo País das Maravilhas. Alice é uma das faixas mais fortes do álbum e simboliza a busca pela cura.

 

Stupid Love

Terceira faixa e primeiro single do álbum, Stupid Love tem fortes elementos das vertentes de música eletrônica, uma estrutura típica de música pop que gruda na mente e uma letra que versa sobre derrubar defesas, aceitar a vulnerabilidade e se abrir para o amor, se permitir. O clipe da canção foi todo filmado com Iphone e tem visual oitentista bem over, colorido, brincando com uma estética distópica futurista.

 

Rain On Me (With Ariana Grande)

Quarta faixa e segunda música de trabalho de Chromatica, Rain On Me traz a combinação da voz forte, marcante e performática de Gaga com a suavidade do canto de Ariana Grande, que se complementam, assim como suas performances no clipe, que explora a metáfora da chuva, contida na letra da música, enquanto uma celebração de todas as lágrimas que lavam para longe a dor e os pecados, em meio a cenários e figurinos que fazem referência à estética cyber punk. 

 

Free Woman

A batida dançante de Free Woman, que não se destaca particularmente dentre as demais presentes no álbum, contrasta com a história por trás da letra, que é o ponto alto da canção, inspirada no abuso sexual sofrido pela cantora por parte de um produtor musical e que carrega seus sentimentos sobre a indústria e sobre sua trajetória, com tudo o que passou para chegar onde chegou. O processo de criação da música, bem como do álbum como um todo, foi também um processo de superação do trauma sofrido. Segundo Gaga, ela não quer mais se definir como uma sobrevivente ou como uma vítima de abuso sexual, Free Woman é o testemunho de uma mulher livre, que passou por momentos difíceis, mas se cura, se afirma e se liberta por meio de sua dança e de sua música.

 

Fun Tonight 

Faixa que encerra o primeiro segmento, Fun Tonight possui uma melodia intensa e dramática que ecoam a força e o desabafo honestos contidos em seus versos e no vocal poderoso de Gaga. Uma dor que não cessa, uma dificuldade de se enxergar, os ônus da vida pública, de estar sob eterno escrutínio, as tentativas de ignorar feridas abertas, quando as luzes, a fama, a festa não são escape, mas prisão. 

 

Reprodução: Papel Pop

 

Chromatica II

Faixa instrumental que introduz o segundo segmento do álbum. Com tom melodramático, faz a transição para 911 de forma suave, como se fossem uma.

 

911

 

Com uma voz suave e robótica, Gaga faz um pedido de socorro em meio à batida eletrônica. Às vezes, nós somos nossos piores inimigos. Auto-depreciação, mudanças de humor, depressão, crises de choro, remédios, álcool, escapismo versus sobriedade, desejar o fim. Desabafo direto e reto. “Can you patch the line?”.

 

Plastic Doll

Facilmente uma das melhores canções do álbum, Plastic Doll é melódica, cadenciada, suave, o equivalente sonoro de uma Barbie. E é disso que a letra trata, objetificação da mulher. Com seus cabelos loiros e lábios de cereja, ela não é uma boneca de plástico, não é um brinquedo. É o tipo de música cuja estética sonora é tão palpável que é quase visual. E é impossível não amar. O conjunto da obra me lembrou da canção Mannequin, da cantora Katy Perry. 

 

Sour Candy (With BlackPink)

Fruto de sua parceria com o grupo feminino de k-pop BlackPink, Sour Candy une o vocal e a melodia dramatúrgicas de Gaga à batida disco e o canto ritmado do pop coreano, combinação acertada que dá à canção uma sonoridade única e agridoce, como o título sugere.

 

Enigma

Batizada com o mesmo nome do concerto que Gaga realizou por mais de um ano em Las Vegas como residente, Enigma é um pop eletrônico vibrante, cheio de energia que fala de relacionamentos. A melodia se assemelha à Edge of Glory e Born This Way, sucessos de discos passados da cantora.  

 

Replay

Um eurodance bate-estaca e vocais fortes e inconstantes embalam o constante replay de um relacionamento tóxico que deixou muitas cicatrizes internas. 

 

'Chromatica' tem Lady Gaga em volta às origens com letras diretas e eurodance escapista; G1 Ouviu

Reprodução: G1

 

Chromatica III

Chromatica III é tudo que suas versões anteriores são e muito mais. Com uma vibe orquestral quase divina, acordes rasgados de violino e o som de chuva ao fundo, o instrumental abre caminho pelas nuvens para que possamos ver o “sinal que vem dos céus”.

 

Sine From Above

A parceria entre Gaga e seu mentor e amigo Elton John é a síntese de tudo que Chromatica representa. Após o mergulho em Chromatica I e II, seguindo a jornada de dores e traumas em meio às luzes, cores e batidas dançantes, temos no terceiro segmento do álbum o começo do fim. O pedido de socorro de Gaga é finalmente atendido, o sinal vem dos céus com a revelação: o som. Sua cura é a música. Além da letra belíssima, Sine From Above tem uma melodia teatral e angelical, a combinação das vozes de Elton e Gaga, ambos artistas performáticos, confere ainda mais potência à canção, que se encerra com uma quebra melódica seguida de uma sequência enérgica de bateria e baixo. Extravagante e épica, como seus intérpretes, é a melhor música do álbum.

 

1000 Doves

Simbólica, 1000 Doves, assim como sua antecessora, vem sacramentar o fim da jornada de cicatrização e cura. Agora só falta um empurrãozinho final para alçar vôo e seguir em frente. Em melodia e letra, esta é provavelmente a canção mais suave do álbum mas, infelizmente, também a menos inspirada. 

 

Babylon

Última faixa do disco, Babylon é estranha e incrível, é Lady Gaga raíz, Fame Monster Style. A letra fala de fofoca, algo que vem acompanhando Gaga por toda a sua carreira e é, na verdade, algo comum na humanidade desde a antiguidade. Pela estrutura e proposta da canção, é possível até especular que ela funcione como uma afronta à uma fofoca específica que sempre foi uma pedra no sapato de Gaga, sua polêmica relação com Madonna. Babylon lembra vagamente Vogue, música de Madonna da década de 90. A cantora já acusou muitas vezes Gaga de copiá-la e tentar ser ela, fazendo até referências a isso em seus shows da MDNA Tour. Ao apresentar “Express Yourself” no palco, Madonna interrompe sua música e canta um trecho de “Born This Way”, de Gaga, e um trecho de sua própria música “She’s not me” (“ela não sou eu”). No documentário de Gaga lançado em 2017, “Five Foot Two”, a cantora fala sobre como toda a fofoca feita por Madonna e o burburinho envolvendo as duas a acompanham por anos e a incomodam, porque ela sempre foi uma grande fã da artista. Sendo ou não uma referência a essa relação, Babylon é divertida e mostra que agora as fofocas não são mais uma questão para Gaga, que mais uma vez dança em cima de seus problemas, encarando as dificuldades de frente com sua música e as supera. É a celebração do fim da jornada de Chromatica e o início de uma nova fase, de uma nova Gaga. 

 

Bônus: Love Me Right (Target Exclusive)

https://www.youtube.com/watch?v=LgLPKkVViCg

Love Me Right é a primeira faixa bônus da versão deluxe de Chromatica. Próxima a uma balada romântica em melodia, em certo momento a canção brinca com a altura de Gaga citando o título de seu documentário “Five Foot Two” e seus sapatos altos, uma alusão aos seus figurinos excêntricos e à ideia que eles criaram no imaginário das pessoas sobre quem ela é.  Mantendo-se no tema do álbum, a letra fala sobre aparências que enganam, sofrimentos, sobre se esconder e querer ser amada por quem é, apesar de tudo.

 

Reprodução: PopLine

Um dos grandes trunfos de Chromatica é o contraste causado pelas melodias dançantes e vibrantes embalando versos sombrios, carregados de muita dor e sentimento. Em meio a um álbum repleto de grandes músicas e muita energia, que não perde o fôlego em nenhum momento, “Alice”, “Rain On Me”, “Fun Tonight”, “911”, “Plastic Doll” e “Sine From Above” se destacam como as canções que mais personificam o conceito de Chromatica. E têm potencial para gerar clipes tão icônicos quanto Bad Romance e cia.

Metafórico e ainda assim bastante direto, Chromatica é um álbum muito pessoal e universal na mesma medida, estabelecendo facilmente uma relação de identificação e acolhimento com quem o ouve. Uma experiência de imersão purificadora, é a dança catártica da cura através da música. 

 

Por Nathalia Zuccari.

 

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