{Resenha – Especial #PrideMonth} Flores Raras - Hospicio Nerd

Pride!

O lirismo do filme Flores Raras

Flores Raras – Wikipédia, a enciclopédia livre

Baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas de Carmen L. Oliveira, o filme Flores Raras (2013) de Bruno Barreto relata a história de amor entre a arquiteta e paisagista brasileira Lotta Macedo e a poetiza norte-americana Elizabeth Bishop.

A película se inicia com a figura quase fantasmagórica de Elizabeth Bishop (Miranda Otto) lendo um de seus poemas para o seu amigo íntimo Carl (Robert Lowel) no belíssimo Central Park dos anos 50. O blasé da leitura dos seus versos complementa quase que magicamente os tons de verde-azul-cinza da imagem de início, compondo um dos elementos significativos para a sobriedade do filme.

O cenário mudara quase imediatamente para o navio em direção ao Brasil, onde a escritora aguarda a travessia da embarcação pela Linha do Equador, dividindo as Américas. Essa cena é importante, pois além de anunciar o fato de que ela trocaria em algum momento os Estados Unidos pelo nosso país, mais tarde Elizabeth escreveria North and South (Norte e Sul), livro esse que a faria vencedora do prêmio Pulitzer, um dos maiores reconhecimentos da literatura mundial.

Chegando ao porto da Bahia de Guanabara, Lotta (Glória Pires) e Mary (Tracy Middendorf) vão ao encontro de Elizabeth, e as três seguem em um conversível passando por uma bela paisagem carioca rumo à Samambaia, residência em que o casal Lotta e Mary moravam.

No início, a convivência dos membros da casa com Elizabeth era difícil, principalmente por Lotta não suportar a impessoalidade da escritora. No entanto, esse comportamento mascara alguém que diz não se orgulhar do próprio trabalho, pois incrivelmente Miss Bishop considerava a sua escrita incompleta e fragmentada (pasmem). Essa suposta fraqueza fez com que o coração da arquiteta balançasse e daí se iniciaria a paixão ardente que outrora estaria grafada em vários dos seus poemas.

No entanto, Mary estava disposta a sair de casa devido ao escancarar da relação de Lotta e Elizabeth, então uma grande discussão entre as duas fez com que o casamento se rompesse de vez. Na mesma noite, a arquiteta e a escritora têm a sua primeira relação sexual, com cenas envolventes de paixão com sutil erotismo. A fotografia do filme ganha um grande destaque nessa cena.

Particularmente o auge do filme se dá em uma cena que inspiraria um dos mais famosos (senão o mais bonito) de Elizabeth Bishop. Em uma banheira, a poetisa lava os cabelos longos e negros de Lotta enquanto sussurra mentalmente as imagens que inspirariam “O Banho de Xampu”, comparando o breu dos cabelos da arquiteta ao céu noturno, e as bolhas de xampu às estrelas (chorei, não digo por onde rs).

Flores Raras

A relação entre Mary e Lotta ainda seria próxima, mesmo que não mais amorosa. As duas decidem adotar um bebê, Mary seria a mãe da criança e a paisagista seria a avó. Todos ainda morariam em Samambaia, porém em casas separadas. Mesmo que essa situação trouxesse incômodo à escritora, ela aceitou, mesmo que afogada em melancolia e alcoolismo.

Então, a história de amor desenrolar-se-ia de forma promissora até o momento em que Miss Bishop ganharia o prêmio Pulitzer. Todos os amigos próximos de Lotta, inclusive o então governador do Rio de Janeiro Carlos Lacerda celebram o feito em um baile de champanhe e uísque.

Glória Pires é a nossa flor rara – Blog da Monique

Carlos Lacerda decide contratar Lotta e Mary para projetarem o Aterro do Flamengo, e é a partir desse momento que a relação começa a se deteriorar, pois com a ausência da arquiteta em seu dia a dia, Elizabeth redobraria o consumo de álcool e se mergulharia ainda mais na própria melancolia. Essas cenas são importantes, pois mostra como a depressão age de forma voraz na vida de uma pessoa, mesmo que essa seja considerada a mais importante escritora do mundo naquele momento.

Em meio aos acontecimentos no início da década de 60, o Golpe Militar marcaria uma fase de desgosto que Elizabeth sentiria pelo Brasil, pois ao seu ver (o que concordamos hoje em dia), seria impossível que a maioria do povo brasileiro não se mobilizasse perante a perda da sua própria liberdade. Em um discurso diante da elite carioca, a poetisa demonstrou indignação, fato que deixou a sua companheira profundamente irritada. Lotta recomendou que Elizabeth voltasse a morar em Samambaia. Então ela concordou, porém sentiu a solidão rondar a sua vida de forma mais presente enquanto esperava a volta da sua amada. Lotta estava muito empenhada no projeto do Aterro, por isso não comparecia devidamente. Nem no aniversário da sua companheira.

Como uma compensação pela ausência no aniversário de Elizabeth, Lotta viajaria com a poetisa para Ouro Preto: Uma noite romântica em um restaurante, a maior inspiração para o Aterro do Flamengo e, por fim, uma discussão marcada por humilhações à poetisa marcaria o término do relacionamento. Ela decide voltar à Nova York após aceitar o convite para lecionar em uma faculdade.

As metáforas visuais do filme deslumbram o espectador atento e conhecedor da obra da escritora, pois há trechos de poemas em cada cena, mesmo que não declamadas. Sem falar nas paisagens de ambos países, Brasil e Estados Unidos, que inspiram um bom romance.

Passado alguns anos, o agora ex-governador Carlos Lacerda decide visitar Elizabeth em seu apartamento, onde leva notícias sobre Lotta, que está internada em um hospital psiquiátrico devido à depressão e estresse. Imediatamente, a escritora volta ao Brasil para visitá-la, porém é impedida por Mary, que ainda possuía sentimentos pela paisagista. É interessante observar que a figura austera, firme e, por vezes, austera de Lotta é substituída por alguém vulnerável, praticamente irreconhecível sem as longas madeixas negras, cortadas para servirem de presente à Elizabeth, que nunca chegou a receber.

A cena final, além de triste, é marcante sob a luz da depressão, pois ao sair do hospital psiquiátrico, a arquiteta pega um voo para Nova York a fim de encontrar a sua amada. Vale lembrar que no início do filme, a figura frágil pertencia à Elizabeth, porém os papéis se inverteram, já que Lotta estava visivelmente desgastada pelos anos que passou no manicômio, e a poetisa se mostrou uma mulher mais forte, mesmo que a melancolia ainda se fizesse presente. Miss Bishop conduz a paisagista ao seu apartamento, onde conversam e o pior acontece, pois Lotta encontraria um livro com uma dedicatória romântica de outra pessoa para a sua amada. O desespero a consumiu vorazmente, ouso dizer que a sua morte iniciou-se nesse ato, pois a bela e dolorida atuação que Glória Pires demonstrou sentir em seu papel foi tamanha que me fez presumir a próxima cena. Elizabeth encontraria Lotta inconsciente pela manhã e ao seu lado um vidro de remédios antidepressivos vazio.

Creio que esse belíssimo filme deva ser contemplado por todos, principalmente aqui no Brasil onde houve uma grande dificuldade em se conseguir patrocínio das empresas devido ao preconceito com o tema. Confesso que senti tristeza dessa última vez que assisti ao filme, pois além das cenas em que as personagens na década de 50 sofrem discriminação por se assumirem como lésbicas, é triste que em pleno século XXI pessoas persistam em serem homofóbicas.  Ressalto a importância da visibilidade e veiculação desse filme para que todos vejam como as mais belas histórias de amor podem ser construídas independentemente da orientação sexual, gênero ou raça.

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  1. Joao pauloResponder

    Arrasou 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾 Deu muita vontade de assistir o filme e mais ainda de ler o livro. E essa mensagem final 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾