{Resenha} O Farol – A loucura é só o início - Hospicio Nerd

E depois que começa… já era!

ATENÇÃO !!!!  Spoillers leves abaixo

 

A expectativa estava alta para o novo filme de Robert Eggers (A Bruxa, 2016). O elenco reduzido praticamente a Willem DaFoe e Robert Pattinson já demonstrava que o longa seria uma história intimista e claustrofóbica, mas vai além.

Eggers mais uma vez aplica seu incrível trabalho de pesquisa e ambientação, entregando uma atmosfera imersiva, desoladora e totalmente propícia aos eventos que acontecem.

Todo o design de produção é impecável. Você olha para a ilha de pedra infestada de gaivotas e com um farol no meio e já sabe: Não há como se manter são ali.

    (Foto: A24)

A narrativa é lenta, mas não chega ser arrastada, há bastante tempo para explorar os dois personagens, suas motivações, escolhas e sua descida ao fundo do poço, ou talvez, ao próprio inferno.

Assim, ambos atores não decepcionam. Robert Pattinson que já tem demonstrado não se resumir ao vampiro Edward (saga Crepúsculo, 2008-2012) encarna o jovem Ephraim Winslow, alguém em constante fuga de um passado sombrio, buscando redenção e solidão, mas se depara com algo terrível e fascinante, que o leva a uma jornada direto à insanidade.

Willem DaFoe entrega uma de suas melhores atuações, é impossível imaginar outra pessoa no papel do misterioso Thomas Wake, um velho faroleiro de atitudes questionáveis, personalidade perigosa e doentia.

The Lighthouse First Trailer: Robert Pattinson, Willem Dafoe Go Mad in A24 Psychodrama

(Foto: Indiewire)

O enredo toca em elementos sensíveis da sociedade: a masculinidade tóxica destila por cada pixel da tela; uma luta entre dois machos para se situar como o alfa, até mesmo disputando uma “fêmea”. O próprio farol é descrito pelo diretor como um enorme símbolo fálico, e além, esconde um segredo conhecido por um deles, o que o torna superior e cobiçado pelo outro. É curioso ver como Ephraim quer desesperadamente possuir o segredo do farol unicamente por não saber o que é e por Thomas tratá-lo com tanto ciúme e deferência.

Mas o filme não é apenas sobre o trajeto para a loucura de um homem “guiado” por outro. Segundo Eggers, existem inspirações e camadas muito mais profundas; como a mitologia grega, onde Thomas pode ser visto como Proteu, um velho deus dos mares com poderes metamórficos. Já Ephrain é inspirado em Prometeu, um titã grego que roubou o fogo dos deuses e por eles, foi condenado a ser devorado vivo por uma águia pela eternidade, aqui estas metáforas são quase literais.

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(Foto: letterboxd)

Tudo isso soma-se ao clima inegavelmente Lovecraftiano, ilustrando a desolação, solidão, delírio e o terror vindo do mar. As gaivotas fazem um papel semelhante aos corvos de Hitchcock, um presságio de mau agouro e até talvez, algo sobrenatural.

Nada fantástico é jogado na sua cara mas você é quase literalmente afogado em insinuações, simbologias, lampejos e visões que assim como a Ephrain, o faz duvidar se são reais ou alucinações.

”O Farol” não é um filme fácil de se ver e muito menos de se entender. Trata de solidão, loucura, machismo, toxicidade e egoísmo. Se você gosta de uma experiência impactante, que o faz sair do cinema aturdido, desorientado e sedento por respostas, o longa é definitivamente um prato cheio.

 

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