Estamos lendo menos? A pesquisa que revela o impacto da internet na leitura no Brasil
Voltando a escrever esta coluna depois de meses, só um assunto tem rondado meus pensamentos: estamos lendo menos. Por isso, quis entender como está a leitura no Brasil.
De acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — produzida pelo Instituto Pró-Livro — pela primeira vez desde 2007, temos mais não leitores do que leitores. Os números revelam que 53% são “não leitores”, o que representa 93,4 milhões de pessoas.

A definição de leitor, segundo o estudo, é simples: quem leu pelo menos um livro nos últimos três meses. Ou seja, metade da população não está lendo absolutamente nada nesse período. Entre nós, ao olhar esses dados percebi que, durante uma ressaca literária, também fui classificada como “não leitora” e confesso que me senti mal.
Outro dado preocupante é que boa parte do tempo livre tem sido gasto na internet. Esse percentual só cresce: em 2015 era 50%, em 2024 chegou a 81%.
Mariana, criadora de conteúdo, comenta: “A internet muitas vezes acaba roubando muito o meu tempo, me mantendo nas telas, o que prejudica meu tempo fora fazendo outras coisas”. Como o lazer também é seu trabalho, ela admite que isso dificulta a concentração nas leituras. Ainda assim, não deixou de ler 18 livros nos últimos três meses — incluindo mangás.
A pesquisa também mostra algo curioso: os maiores índices de tempo livre gasto na internet estão justamente entre pessoas com nível superior (91%) e público de 14 a 39 anos. Entre os que têm ensino superior, apenas 35% declararam ler livros no tempo livre. Já na faixa etária de 14 a 39 anos, houve queda de cerca de 5 pontos percentuais de leitores.
No dia a dia, isso faz sentido: a vida adulta traz rotina de trabalho e responsabilidades que reduzem o ritmo de leitura. Bruno Silva conta que seu consumo de livros não mudou tanto, mas o tempo escasso e outros hobbies competem com a leitura.
O impacto da internet e das redes sociais na leitura

E aqui chegamos ao principal inimigo do meu hobbie favorito: as redes sociais. Você já reparou quantas horas passa no celular e em quais aplicativos? Posso garantir, ao menos pela minha experiência, que esse é um dos fatores que mais prejudicam a leitura.
É um ciclo: abro o livro, a tela do celular acende, a curiosidade sobre uma notificação me captura e, quando percebo, já se passaram minutos (às vezes horas) rolando o feed. O livro fica me encarando, sem entender a troca.
O celular sempre parece a escolha mais fácil, já que exige menos concentração. A pesquisa confirma essa dificuldade: 36% dos entrevistados disseram não compreender o que leem ou perder o foco com facilidade, enquanto 26% afirmaram simplesmente não ter paciência para ler.
Bruno concorda que o celular atrapalha: “Consigo me concentrar na leitura, porém, algumas vezes as mensagens roubam a atenção”.
Ana Paula, editora de quadrinhos digitais independentes, também sente essa disputa de atenção. Ela lê bastante — entre 10 e 15 livros para o trabalho e cerca de 3 por lazer em três meses —, mas admite que a internet atrapalha, principalmente pelas notificações. “Ultimamente tenho criado rituais para me obrigar a deixar o celular longe quando vou me dedicar à leitura”, conta.
Um ponto ainda mais preocupante é a taxa de “não leitores” que declararam simplesmente “não gostar de ler”, que subiu para 29%. Já os que dizem “gostar pouco” caíram para 26%. Me pergunto: com tantos gêneros e formatos disponíveis, como não encontraram algo que desperte interesse?
São várias as razões para a queda da leitura. Segundo o estudo, 46% afirmam não ter tempo. Na prática, me parece que não estamos priorizando a leitura — afinal, esse tempo acaba sendo usado na internet. No fim das contas, trata-se de escolha.
Depois de mergulhar nos dados para escrever esta coluna, reformulei o pensamento que me acompanhava: não é só que estamos lendo menos. Estamos escolhendo ler menos. Podemos mudar nossos hábitos lendo mais.
