Caminha ou morra! é um título que pode soar ridículo à primeira vista, mas esconde um filme muito bão.
A qualidade imagética impressiona desde o início, assim como o roteiro, bem aplicado, que mantém o espectador preso. Além disso, a trilha sonora encaixa-se perfeitamente e reforça os momentos de tensão e emoção. Em minha opinião, esses são recursos bem administrados; afinal, uma obra não precisa de efeitos especiais exorbitantes ou CGI para cumprir seu papel: basta ter bom roteiro, bons personagens e atores competentes. E é exatamente nisso que esse filme acerta, pois a história nos conduz do início ao fim de forma envolvente.

Tipo Jogos Vorazes
Todos os filmes anunciados pelo Hospício Nerd me despertam interesse, mas este, em particular, me chamou atenção por lembrar “Jogos Vorazes”. Embora não haja “eleitos de cada tribo/família”, o conceito de jovens de cada estado americano competindo numa grande marcha reflete claramente uma atmosfera semelhante. Nesse enredo, porém, não há desistência voluntária: o caminhão morre; só resta um vencedor. O prêmio? Fortunas em dinheiro ou um desejo a ser realizado. Assim, o filme provoca várias camadas de reflexão — especialmente política — sobre sobrevivência, poder e manipulação.
Parece loucura, mas tem muita pegada real nisso aí
O filme americano situa-se num universo distópico onde, após uma grande crise — fome, dificuldade financeira — surge esse evento extremo para “restaurar” o país. Jovens são obrigados a participar, marchando sob regras rígidas, levados por veículos militares, exército, polícia; ninguém pode fraquejar. Se alguém desacelera ou para, recebe avisos; ao terceiro aviso, há consequências drásticas. Entretanto, o que mais me marcou foi que a figura de autoridade jamais participa da marcha: ela permanece distante, vigiando, dirigindo e decretando punições. Lembro-me de 2020, durante a pandemia do coronavírus, quando filmes como O Poço (Netflix) refletiam exatamente esse clima — isolamento, desigualdade, medo —, e me sinto transportado para aquele contexto ao assistir este longa. O Poço, por exemplo, mostrou de forma brutal como o privilégio pode determinar quem come, quem sofre, quem se sacrifica, o que ecoa bastante no filme que estou resenhando.

Puro suco de cinema, sem efeitos especiais
Não há grandes reviravoltas no enredo; o que há é uma crescente reflexão sobre o que significa sobreviver num mundo autoritário. Conforme acompanho os personagens, vejo que quem fica para trás não tem para onde fugir — é eliminado. O filme mostra isso nos planos focados da marcha, sem muitos intervalos para subtramas: a narrativa é brutal e linear, com sua potência concentrada na jornada e no desgaste físico, psicológico e moral.
Tipo “O Poço”
Ainda assim, surgem personagens de quem me apeguei — jovens otimistas, com histórias pessoais que servem de apoio emocional para os demais. Eles se conhecem pouco, mas acabam se tornando espelhos uns dos outros: esperança, dor, rivalidade. Eu torci por alguns, duvidei de outros, achei que fulano chegaria até o fim, que ciclano sobreviveria — mas o filme mantém o suspense: é difícil prever quem vencerá. Esse dilema moral, esse laço afetivo com personagens favoritos, é o que torna o filme tocante. A comparação com O Poço (lançado em 2019, mas que ganhou repercussão em 2020) me ajuda a perceber essas camadas de degradação humana e desigualdade, muito presentes aqui.

Continuação? espero que sim!
O final reafirma que só um pode perder — ou melhor, só um vence —, deixando espaço para possíveis continuações. Em minha percepção, há potencial de desenvolver mais dos personagens secundários, aprofundar traumas, motivações, escolhas. Por outro lado, esse aprofundamento corre o risco de estragar o que está ótimo: essa simplicidade poderosa de caminhar, sem muitos adornos. Eu vi legendado, e isso me permitiu perceber diálogos importantes e nuances que o áudio dobrado talvez apagasse. Talvez eu veja de novo para captar tudo que ficou nos detalhes — porque o filme é daqueles que permanecem na cabeça.
Por @henriquepheniato
