Hora de falar de filme bom
Dona Netflix chegou com a adaptação do livro O Filho de Mil Homens, e uma produção que chegou sem falar nada merece a sua atenção.
A Netflix lançou aproximadamente 30 filmes originais em 2025. Somando as séries, são quase duzentas produções, ou seja, uma quantidade enorme de sucessos, fracassos e flops. Se antes a Netflix era sinônimo de qualidade, aos poucos foi se tornando mais duvidosa, especialmente com o surgimento de novos streamings que tiraram produções do catálogo.
Para se fortalecer, a plataforma decidiu aumentar as obras originais, dando espaço para o mundo inteiro, com muitos títulos em línguas não inglesas, especialmente latinas.
E como é bom ver quando a Netflix acerta em uma produção feita para brasileiros, com uma narrativa simples, poderosa e carregada de amor, mesmo abordando questões adultas. É poética e sensível.
Que orgulho ter um filme assim para chamar de nosso! Com facilidade, seria indicado a vários Oscars se fosse em inglês.
Mas como a Netflix já tem o histórico de estar no Oscar, podemos ter surpresas aí.

‘O Filho de Mil Homens’, Divulgação Netflix
Enredo
Adaptado do livro homônimo de Valter Hugo Mãe, e dirigido por Daniel Rezende (diretor de Bingo, o Rei das manhãs e turma da Monica laços) acompanhamos a vida de Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador solitário de 40 anos que se sente incompleto e deseja ser pai para se sentir inteiro. Quando encontra Camilo (Miguel Martines), um órfão rejeitado pela vila, decide acolhê-lo, iniciando uma família fora dos padrões. Pelo caminho, conhecemos também Isaura (Rebeca Jamir) e Antonino (Johnny Massaro), cada um sofrendo com as influências familiares e com a vida que os outros impuseram.
Família disfuncional
Ambientado numa aldeia litorânea fictícia, o filme nos traz aquela imagem de cidade carola, cheia de fofoqueiros e religiosos conservadores, facilmente identificável em qualquer lugar do mundo. Em 1964, Zé Mojica criou o primeiro filme do Zé do Caixão intitulado À Meia-Noite Levarei Sua Alma, criticando essa sociedade e daria para acreditar que se trata da mesma cidade.
Engraçado como, no início, para a história virar terror basta mudar a trilha sonora. Estamos tão perdidos quanto Camilo, acolhidos por um homem que fala pouco e não sabe interagir. O longa parece querer mostrar mais do que falar. Crisóstomo, Isaura e Antonino seguem a mesma cartilha: falam para dentro, prendem o choro e guardam um grito dolorido que só é aceito pelo mar. Cada um tem seu espaço para esse brado.
A vida dos personagens é contada de forma capitular, revelando aos poucos como suas trajetórias se conectam até chegar ao jovem órfão. E como uma família pode criar laços através da dor que os une.
O grito do mar
Cada personagem tem uma história singular, conectada pelas circunstâncias. Com cenas pequenas e significativas, entendemos o raciocínio de cada um, buscando sentido para viver ali. O filme aparenta mostrar mais do que falar, com personagens calados pela família, obrigados a viver como os outros querem, não como desejam. Nesse momento, o mar os aceita de braços abertos, querendo-os como são. A filosofia até nos encaminha para algo bíblico, talvez proposital, talvez não. Se em Frankenstein Del Toro trouxe citações explícitas, aqui as referências são sutis:
Mateus 11:28 – “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
Assim, o mar aceita cada personagem e os deixa libertar aquele grito vindo do fundo da dor. Crisóstomo tem um grito natural, de quem já conhece a areia e sabe que aquele lugar o acolhe. O de Isaura é rouco e assustador, carregado de peso, depois de descobrirmos sua angústia. O de Antonino é o mais sofrido: a cena em que os três estão na praia compartilhando a dor é emocionante. Antonino é um jovem gay reprimido pela mãe, incapaz de expressar felicidade ou desejo sem se sentir humilhado. Sua cena é tocante justamente por parecer que ele não sabe gritar nunca soube demonstrar força, quanto mais fraqueza para chorar.

‘O Filho de Mil Homens’, Divulgação Netflix
Crisóstomo e Camilo
Rodrigo Santoro entrega uma performance quase assustadora: pele queimada pelo sol, roupas simples, pouca instrução, mas muita experiência. Talvez seja o personagem mais livre, que mais se conhece, compreendendo que foram as atitudes dos outros que moldaram sua visão de mundo. Um homem solitário querendo um filho que surge quase magicamente.
Para Camilo, ele ensina que cada um é filho de alguém não apenas dos pais, mas também das histórias. Outro momento bíblico:
Gênesis 15:5 – “Então o levou para fora e disse: Olha para o céu e conta as estrelas, se é que podes contá-las. Assim será a tua descendência.”
Gênesis 22:17 – “Certamente te abençoarei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia da praia do mar…”
O pescador talvez saiba, lá no fundo, que não é o único pai do jovem, tanto quanto ele não é seu único filho mas é o primeiro deles.

‘O Filho de Mil Homens’, Divulgação Netflix
Fantasioso e real
O filme tem momentos que flertam com a fantasia e o imaginário, tornando tudo poético e lírico, tal qual o livro. A diferença é que o cinema tem imagem e som, carregando mais peso para cenas curtas, como quando conhecemos a mãe de Crisóstomo, um choque entre momentos calmos e cenas abruptas que causam repulsa, medo, angústia e melancolia.
É um filme que começa falando baixo, como seus personagens, mas às vezes grita muito alto. À medida que avança, eles se sentem mais à vontade para falar cada vez mais alto, pois sabem que o mar sempre estará lá para ouvir seus gritos.
Tudo isso sem se esquecer da narração pontual de Zezé Mota, que tem a voz calma, mas poderosa como as ondas do mar.
O Filho de Mil Homens nos mostra que família não se resume a pai e mãe. Não a escolhemos. Muitas vezes, a vida junta disfuncionais singulares que funcionam em coletivo.
Somos filhos de múltiplas influências, construídos com milhares de histórias.
Somos todos filhos de mil homens.
O filme está disponível na Netflix.
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Texto por Caio David Alves.
